Pela terceira vez sob o comando de Carlo Ancelotti, a Seleção Brasileira vai a campo sem o seu principal astro. Neymar segue se recuperando de uma lesão chata no reto femoral da coxa direita e, confirmando as expectativas, não deu as caras na lista divulgada pelo treinador italiano nesta quarta-feira (1º). A mensagem de Ancelotti na última coletiva foi um papo reto: o critério número um é a condição física. Se o cara não estiver batendo os 100%, a fila anda e outro jogador da mesma posição assume a bronca.
A real é que o departamento médico virou o principal adversário do craque, e os problemas físicos que ele vem enfrentando no Santos têm sido o grande entrave para uma sequência com a amarelinha. Lá em março, durante a Data FIFA, ele já tratava a coxa esquerda — o que acabou tirando o atacante das semifinais do Paulistão e das primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro. Na primeira convocação do italiano, o jogador até estava em fase de transição e chegou a entrar no segundo tempo contra o CRB, pela Copa do Brasil, mas ainda estava longe do ritmo ideal. Na época, o técnico precisou contemporizar, lembrando da importância de Neymar, mas frisando que precisava de atletas na ponta dos cascos.
A bruxa continuou solta na segunda lista, no final de agosto. Um edema na coxa, detectado nos treinos do Peixe logo após uma pesada derrota por 6 a 0 para o Vasco, o tirou novamente de combate, mesmo ele já tendo voltado aos gramados antes dos compromissos internacionais. O relógio é implacável: o astro está a um passo de bater a amarga marca de dois anos sem vestir a camisa do Brasil. A última vez foi naquele 17 de outubro de 2023, nos 2 a 0 contra o Uruguai, em Montevidéu, quando saiu machucado logo no primeiro tempo. De lá pra cá, a CBF virou do avesso: Samir Xaud assumiu a presidência, a casamata viu as trocas entre Dorival Júnior e Carlo Ancelotti, e uma enxurrada de novos garotos estreou pela equipe.
A Torcida e a Fuga da “Maldição de Rocky” na Filadélfia
Enquanto a comissão técnica sua frio para ajustar o time no gramado sem sua principal referência técnica, nas ruas da Filadélfia a torcida faz o seu corre para evitar que qualquer azar chegue perto do elenco nesta Copa do Mundo. O clima é de pura superstição, e o alvo principal é a famosa estátua do Rocky Balboa. Os brasileiros que colaram na cidade para acompanhar o jogo contra o Haiti nesta sexta-feira já pegaram a visão: vestir a estátua de bronze de três metros e meia tonelada com a camisa da Seleção é pedir para ser nocauteado.
A fama de pé-frio do monumento não é lenda urbana. Torcedores americanos já sentiram na pele que colocar uniformes, cachecóis ou qualquer acessório de time visitante no herói da cidade costuma atrair derrotas dolorosas contra as equipes locais. A “zica” cruzou as fronteiras do futebol americano e chegou ao soccer quando os equatorianos dominaram as famosas escadarias. A galera cantou, dançou e, em um momento de empolgação, amarrou a bandeira e vestiu o Rocky com a camisa do Equador. O resultado não perdoou: o marfinense Amad Diallo guardou um gol aos 45 do segundo tempo, garantindo a vitória por 1 a 0 da Costa do Marfim na estreia dos equatorianos em Mundiais após um jejum de 12 anos. E no futebol, não tem revanche que salve.
O Alerta Verde e Amarelo e a Pressão Pelo Hexa
Depois do tropeço dos vizinhos sul-americanos, a torcida canarinho ligou o sinal vermelho. O grupo Movimento Verde e Amarelo foi cirúrgico no Instagram: “ATENÇÃO TORCEDOR! É totalmente proibido colocar a camisa do Brasil na estátua do Rocky em Philly!!!!!”. A galera acatou o aviso na hora. Até o perfil oficial de turismo da Pensilvânia entrou na brincadeira para avisar os gringos que, assim como o Ivan Drago descobriu da pior forma, com o Rocky não se brinca. A página relembrou o histórico trágico dos times de futebol americano que tentaram a sorte e falharam, apontando que a história mostra que não se trata de mera coincidência.
Na tarde de quinta-feira, dezenas de brasileiros se contentaram em apenas posar em frente à estátua — que hoje fica no topo da escadaria e atrai uns 4 milhões de turistas por ano —, erguendo os braços em triunfo, exatamente como o lutador fazia nos filmes. “Esse é um grande momento para o Brasil”, comentou Lorival Guerreiro, que viajou de Limeira direto para o torneio. “O pessoal promove esse lugar pra gente fazer a festa antes do jogo. O brasileiro vem aqui pra celebrar a nossa Seleção”.
Roberto De Freitas, um gaúcho radicado na Flórida que já está na sua terceira Copa do Mundo, também subiu os degraus todo trajado de verde e amarelo para uma sessão de fotos. O fã de carteirinha da franquia de Sylvester Stallone confessou que não conhecia a lenda urbana, mas recuou rapidinho quando avisado sobre os riscos. “Foi isso que falaram?”, perguntou rindo. “Com certeza não vou fazer isso, estamos atrás do sexto título”.
O respeito absoluto à superstição reflete o tamanho do peso nas costas do time. A pressão por um título mundial que não vem desde 2002 é colossal. A Seleção já começou patinando e precisou de um gol de Vinícius Júnior aos 32 minutos para arrancar um empate suado de 1 a 1 contra o Marrocos no sábado. A Filadélfia, que por acaso abriga quase 6.000 imigrantes brasileiros e recentemente viu os Eagles abrirem a temporada de 2024 da NFL com uma vitória lá no Brasil, agora é o palco onde o time de Ancelotti precisa mostrar serviço. Sem Neymar e fugindo de maldições, o recado é um só: todo cuidado é pouco contra o Haiti.