Quem olhasse apenas para os 71.6% de posse de bola do Real Madrid no placar do Santiago Bernabéu naquela tarde de maio, poderia imaginar que foi um jogo tranquilo. Pura ilusão. O embate contra o Mallorca pela reta final do Campeonato Espanhol virou um teste de nervos para a torcida madridista. O time da casa amassou o adversário o tempo todo, mas a bola teimava em não entrar de jeito nenhum. Arda Güler cansou de arriscar de fora da área, parando em bloqueios sucessivos da defesa ou nas defesas do goleiro. Federico Valverde e Luka Modric tentavam furar a retranca de todas as formas, enquanto o Mallorca se segurava como podia e tentava escapar.
A angústia só começou a diminuir aos 23 minutos do segundo tempo. Kylian Mbappé, chamando a responsabilidade no meio da área, soltou o pé direito e balançou a rede para empatar a partida. Um a um. A partir daí, o que se viu foi um verdadeiro bombardeio branco. O técnico mexeu no ataque, tirando Endrick para colocar Gonzalo García, na tentativa de dar sangue novo à linha de frente. O Mallorca respondeu trancando ainda mais as portas, trocando peças exaustas como Darder e Lato para tentar segurar o ponto fora de casa.
Quando o quarto árbitro levantou a placa indicando cinco minutos de acréscimo, a atmosfera no estádio já era de puro desespero. Bellingham e Ceballos ditavam o ritmo de uma blitz interminável. E foi justamente no último suspiro, aos 50 minutos cravados, que a mágica aconteceu. Pablo Maffeo cedeu um escanteio fatal. A bola viajou para o meio da confusão e Jacobo Ramón, de pé direito, mandou para o fundo das redes. Uma vitória por 2 a 1 arrancada a fórceps, daquelas que definem os rumos de uma briga por título.
O ostracismo nos bastidores
Enquanto os holofotes se voltavam para a euforia da virada heroica, uma peça que deveria ser fundamental nesse quebra-cabeça assistia a tudo de longe, envolta em uma névoa de incertezas. É difícil acreditar que Álvaro Carreras, um jogador que custou quase 50 milhões de euros aos cofres do clube, tenha se tornado um fantasma dentro do elenco. A diretoria fez um baita investimento acreditando que ele seria o dono absoluto da lateral esquerda por muitos anos. E, para ser justo, essa aposta parecia estar dando certíssimo no início da temporada.
Sob a batuta de Xabi Alonso, Carreras era praticamente intocável. O ex-treinador depositava uma confiança cega no espanhol, escalando o lateral em jogos de peso e garantindo uma sequência invejável. A matemática não mente: com Alonso, ele entrou em campo em 24 dos 28 compromissos da equipe, sendo titular em 23 oportunidades. Uma taxa de presença que batia a casa dos 86%. Ele era uma das grandes sensações da temporada.
A virada do ano, no entanto, trouxe Álvaro Arbeloa para o comando técnico em janeiro. Foi aí que o castelo de Carreras começou a ruir. De peça-chave, o lateral foi lentamente rebaixado a uma opção de emergência.
A ruptura silenciosa
Se você olhar os números frios da era Arbeloa, pode até achar que não foi um desastre tão grande. O defensor disputou 14 partidas com o novo chefe, começando 13 delas. Só que o ritmo de utilização despencou drasticamente para cerca de 56%. E existe um recorte bem específico que ilustra a perda de prestígio do jogador.
Ironicamente, foi justamente nos arredores desse confronto tenso contra o Mallorca que a corda arrebentou de vez. Até aquela altura, com o Real Madrid ainda na caça matemática do título de La Liga, Carreras vinha sobrevivendo na rotação, participando de 12 dos 18 primeiros jogos de Arbeloa. Depois dessa fase? O cara evaporou. Nos sete jogos seguintes, o treinador simplesmente o colocou em campo míseras duas vezes, preferindo buscar qualquer outra solução defensiva do que dar minutos ao investimento de 50 milhões.
A engrenagem do futebol gira rápido e não costuma perdoar quem perde espaço. Carreras, no entanto, não parece disposto a jogar a toalha e bater em retirada do Bernabéu. Ele segue com a cabeça no clube, focado em provar seu valor. Talvez a maior motivação dele hoje não venha necessariamente dos treinos, mas dos bastidores: Arbeloa não estará no comando do time para a campanha de 2026/27. É um sopro de esperança de que a página vai virar mais uma vez.